11.7.13

Madeira nobre

Tudo ali cheirava madeira nobre, dessas que hoje nem pensar. Era como viver com seguidas gerações curtidas naqueles armários, verdadeiros tonéis emocionais. Essas madeiras que simbolizam o que dura "para sempre" e que valem ouro por isso. Por durar. Inegável valor, contudo com o peso inevitável da eternidade.
Como o próprio fio cultural - mais do que genético - que liga as gerações. Essa madeira nobre que faz de nós uma civilização, esse armário antigo transmitido de pais para filhos sobre como ser, como conviver. Isto que de alguma forma mantem uma certa sobriedade do mundo, mas com um "verniz" fino por sobre a verdade de que tudo se decompõe, para compor novas coisas, novas emoções, mesmo as madeiras nobres, mesmo que leve tempos.
Ali, naquela sala, me perguntava se conseguiria me desfazer do valor da durabilidade daqueles móveis antigos e nobres, para compor novas paisagens internas e destilar minhas emoções em tonéis de outros materiais. Contudo, sem dúvida a qualidade do novo estaria aquém daquelas madeiras, rainhas da floresta (que hoje nem pensar).
Sem perceber me perguntava na verdade se poderia me libertar destes armários de civilização que moldam tanto e tão fortemente meus hábitos, meus medos, meus sonhos....de uma forma que me prende, mas me mantém sã e segura. Quereria mesmo essa liberdade? De que me valeriam novas paisagens sem segurança, sem lucidez? Mas de que valeria a durabilidade sã e segura de uma "prisão"? Algo me sugeria que não haveria resposta possíveis para tanta dicotomia. De toda forma, na dúvida, penso em manter alguns destes móveis, mas não todos...

Um comentário:

  1. Lindo, Má! Consegui sentir o mesmo cheiro e as mesmas sensações! Muito obrigada por transmitir em palavras aquilo que eu não sei identificar....Beijos Ju (Alfa)

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