11.5.12

pedreira de pensamentos

respirou a vida toda. mas era, ainda assim, muito difícil reparar constantemente no ar entrando e saindo. ali morava um silêncio primordial, mas ela mordia os pensamentos. agarrava-se as eles como tesouros, grandes descobertas. o dente trincou de morder e o pensamento foi moído. diluiu-se no sangue e ocupou todo o espaço. o silêncio se calou.
durante a noite, enquanto todos dormiam, ocupava-se de triturar pensamentos. como um vício, sem parada. já tinha pilhas deles triturados. de um tanto capaz de cimentar uma casa, quem sabe um edifício, quem sabe uma cidade inteira.
mas aquele material triturado não construía nada. ocupava muito espaço, só que ao pegar se desfazia no ar.
ao poucos (não de repente), ela foi se dando conta e se arrepiando com aquilo. era uma colecionadora de pensamentos triturados. aquilo não servia para nada, apenas para ocupar espaço e tempo. 
ainda que fosse difícil, ela iria se focar no ar entrando e saindo...libertando os pensamentos, abandonando sua pedreira.

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